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o mais sagaz dos animais

em sua sabedoria ancenstral

disse para o jovem monge


'segurar

o sinal com as mãos

voar é qualquer coisa

acima do chão

mas o corpo quebra

ah, como o corpo quebra

mesmo se amarrar um brilho nos olhos

ou um cometa direto no coração

o corpo quebra

ah, o corpo sempre quebra'


o jovem monge

foi pra linha do horizonte

onde o ponto de fuga é tão

fugaz

ali tão longe de tudo

quando o mundo fica mudo

num único segundo

'o corpo tem que quebrar'

ficar livre do

império do respirar

deixar a maciez ser ruga

o cabelo

esticar até

perder a cor.

'ah, que lindo o corpo quebra

que lindo o corpo sempre quebra'



minha boca ainda mente

coloca letra

onde deveria ter

silêncio

e seca

horas

com longas voltas

e tontas ondas

sobre aquilo

que eu

deveria

dizer.


um longo dilema

conciliar

o faro apurado

do nariz grande e cansado

com o fardo

dessa boca

viciada num sorriso

sem som.

os olhos parecem abobalhados

depois de tanto show

com os dentes

e a língua

se contenta com a

performance desonesta

dos lábios e das letras ditas.


não é difícil ter um rosto

mas como é que cheguei aqui

se até minhas sobrancelhas

uso para me trair?


"ei, idiotinha!

que besteirinhas você vai inventar agora?

que tal só falar a verdade e depois

silêncio?"


quando te vi desintegrar as ciências sociais inteiras

com a ponta de seu dedo sujo de terra

eu me prometi seu.



© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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