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o corpo funcionando

em estado de

essência

o mínimo do alimento

o mínimo do entendimento

o mínimo do homem


qualquer frase dita

com a boca

é peso.

os pensamentos

vertem-se em discursos

e na cabeça

não há retórica

não há retorno

não há ré


a força de partir um átomo

para escovar os dentes


os pés aprendem rápido

o arrastar

e as meias escondem pegadas.

o único que nunca se acostuma com

nada é o nariz

o cherio do lixo acumulado

da poeira

do chá velho

o nariz denuncia tudo

e o corpo finge levar um tiro

se arrasta como se sangrasse

e quer, mas não pode.


não deixo que sangre nada.


o corpo funcionando

em estado de

essência

o mínimo do alimento

o mínimo do entendimento

o mínimo do homem


o mínimo ainda é um tanto

e com alguns dos meus

fica ainda um pouco mais.


não é hoje que você vence.

nem nunca.

jamais.

perguntam a minha idade

com uma certa frequência de espanto

respondo com

"tenho todas as idades"

o espanto se dilui em contrações

de caracol

e a conversa se transforma em

desafio.


pense

que o tempo é mais além

do que calendário.

os dias e horas e anos

usa-se para o trabalho.


mas

quando penso nas coisas que

amo

sinto que as amo por muito mais tempo

do que vivi.


marcelo, por exemplo,

conheço-o a vinte e nove anos,

mesmo ele tendo seis e eu

vinte e cinco.

amo-o há mais de um século.


conheço holden caulfield há

quinze, mas apenas li o apanhador

em dois mil e dezenove.


aquela banda da década de oitenta me influencia

desde seu primeiro show, ainda que a primeira vez que ouvi

foi em dois mil e oito e a banda já tinha terminado.


o tempo e as idades fluem dentro de mim

hoje de manhã acordei com sessenta anos e uma profunda depressão

de espuma. agora, enquanto escrevo,

tenho 30 anos e alguns sonhos.


até o fim da noite serei uma criança

ou talvez

quem sabe

deus.

entregaria de bandeja

toda essa arte

que nem é grande coisa

colocaria numa mesa

a cabeça de um gigante

pra quitar este domingo

eu ofereço tudo ou qualquer coisa

pra não sentir

este abismo

abro mão de todo essse tanto

pra que minha perna pare

de tremer

eu paro

prometo que paro

de fazer o que quer que seja

pra ter um domingo sem este

peso desconcertante

diante dos meus olhos.


maldito sentir de ilha




© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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