- Caio Ribeiro
- 29 de abr. de 2021
- 1 min de leitura
suspenso noir
suspenso noir
A Revisa Literária Pixé é um frescor na literatura mato-grossense e arrisco dizer, nacional. Cada editorial conta com a presença de artistas da palavra e artistas visuais que pintam a revista de acordo com o seu fazer. A revista é também um registro importantíssimo da produção literária que está ocorrendo, especialmente em Cuiabá. E desde o lançamento da revista, tenho participado com meus poemas de todas as edições.
Mas este texto não é sobre poesia. A Revista prepara edições especiais paralelas as edições tradicionais, e neste edição 'pintada' por Gervana de Paula, fui convidado a escrever um artigo. Lógico que aceitei o desafio e escrevi em cima do tema da edição especial: LITERATURA E PERIFERIA.

O tema da Revista por si já traz múltiplos diálogos possíveis. Escrevi de acordo com a minha vivência na literatura. De acordo com as experiências que fazem sentido pro meu corpo. O corpo que existe é o mesmo que escreve.
"(...)A escolha editorial desta e das outras edições é privilegiar a literatura e a arte. Qual literatura? A literatura, ora! Importa mais outras questões: quais autores?, qual estética?, qual temática? Isso tudo diz respeito à nossa identidade ou, pelo menos, à identidade que queremos ter. Nessa edição, convidamos Fábio Roberto Ferreira Barreto e Márcio Vidal para fazer a curadoria dos textos. No nosso breve encontro na USP, pedimos aos dois estudiosos – queremos publicar escritores da periferia. Mas que periferia? – perguntariam os leitores. De todas as periferias – respondemos de pronto. Periferia é o lugar onde nos colocam e onde nos colocamos. Periferia não é o oposto do centro, os polos apenas estão longe. Juntos – margem e centro – compõem o todo. Não raras as vezes em que alternam-se de posição no universo artístico(...)"
(Editorial da Revista Pixé, edição especial, outubro 2019)
Colaboraram nesta edição: Akins Kintê , Allan da Rosa, Ana Lorena Teixeira, Augusto Cerqueira, Emerson Alcalde, Elizandra Souza, Gaspar Z’África Brasil, Jairo Periafricania, Jéssica Angelin, Luz Ribeiro, Márcio Batista, Walnice Vilalva, Fábio Roberto Ferreira Barreto e Márcio Vidal Marinho, Ludmila Brandão, Márcio Ricardo, Michel Yakini, Mayana Vieira, Meimei Bastos, Nelson Maka, Ni Brisant, Rodrigo Ciríaco, Tula Pilar, Zainne Lima Matos, Thatá Alves, Eduardo Mahon e eu!
Para quem quiser ler & conhecer a Revista Pixé, clica aqui! Vale muito a pena!
E deixo o texto que escrevi aqui embaixo para quem quiser ler.
A DISTÂNCIA E A REVOLTA
- Não existe mais distância.
Pelo menos não a distância que havia há 10 anos. E a distância dos últimos dez minutos também se transformou. Houve um tempo, nem tão longe, em que a distância era a medida de separação entre dois pontos. O mínimo comprimento entre as possíveis trajetórias sobre a superfície partindo de um ponto e atingindo o outro. Era tão mais fácil, naquela época, saber se está longe ou se está perto. Se vai demorar ou se será rapidinho.
A distância se transformou. A gente se transformou e acabamos transformando os nossos parâmetros de distanciamento. A modernidade tardia trouxe o advento da dupla-qualidade em estar perto e longe: Longeperto & pertolonge.
Longeperto:
Advérbio e/ou adjetivo. Sensação ou capacidade de estar geograficamente distante de alguma coisa ou ideia, mas ainda sentir-se próximo ou conectado de alguma forma (geralmente inexplicável ou genuinamente emocionada). Não confundir com saudade. Nem com melancolia, ainda que possam estar acompanhadas.
Pertolonge: Advérbio e/ou adjetivo. Sensação, capacidade ou ainda o sentimento (e porque não a emoção?) de estar geograficamente próxima de uma coisa ou ideia, mas sentir um distanciamento (pequeno, grande ou imenso) sobre aquilo que tenta (e aí, sem sucesso) se conectar. Há uma não-afinidade que impede que o fluxo contínuo se estabeleça, levando a uma sensação de distanciamento daquilo que se está próximo.
Essas duas sensações são muito comuns. Acontece que a distância se desenvolveu e tomou caminhos muito complexos – assim como as nossas relações, pois essas duas instituições se interpenetram, onde uma faz a outra e a outra faz a primeira. A causa desta transformação não está aqui (esta perigosa tarefa fica para a posteridade), no entanto uma mínima reflexão sobre as distâncias é possível.
Neste dilema de Longeperto & Pertolonge, ainda existe espaço para definir Centro e Margem? Com essa gigantesca capacidade de encurtar as distâncias ou estender abismos, é possível estar perto ou longe daquilo que se tem nas mãos ou daquilo que se quer tocar? A tecnologia transformando nossas relações e nós transformando a tecnologia. Conectar é realmente conectar? Escrever poesia em Mato Grosso é estar distante de São Paulo? O quão longeperto estamos do centro e o quão pertolonge estamos da margem?
Em Cuiabá, Mato Grosso - o lugar onde este texto é escrito -, a nuvem de fumaça existe há muito tempo. Os céus já são escuros e o clima quente sempre carregou um certo desespero – e mais – um certo despreparo para tudo que, por exemplo, São Paulo enfrenta agora. Hoje, para além de ser um autor mato-grossense, sou um poeta e, portanto, tenho a revolta como um horizonte possível. Nas palavras de Helio Oticica:
Eu incorporo a revolta.
E a vontade da revolta tem sido uma conexão forte entre os poetas de todo o Brasil. A revolta nos faz longeperto – nos permite sentir acolhidos, aproximam afinidades – e essa distância que dilata e comprime é um combustível para entender – e sentir – que estamos distantes da revolução – que é toda pautada no construir da história -, mas próximos, muito próximos da revolta, que é pautada, principalmente, no destruir do que está posto. Em Paulo Ferraz (meu conterrâneo que nunca vi ao vivo), encontro esta revolta que me é mãe e filha:
(...)
Projeto o poema como
um artefato explosivo;
um composto de imagens que uma vez detonado despedace o edifício
de ignorância que grassa
(...)
Sentir essa revolta é uma solidariedade consigo mesmo. Um ato de profunda rebeldia interior. Imaginar este mundo possível e, mais do que se indignar, é armar poemas feito bomba. É fazer do muro a página, e da cidade o livro. Imaginar um novo povo, o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele, como diria Viveiros de Castro. As distâncias se destroem enquanto a revolta do poema nos une.
É necessário reclamar para si a violenta intensidade do poema e subverter os parâmetros de distância - e esta tarefa exige profunda reflexão, afinal, existem diversas variáveis sociais que podem propor caminhos mais longos, mas ainda acredito na genuína capacidade de se revoltar e repensar, realinhar, reestruturar, reconhecer no outro o que tem de potente.
“Existe uma diferença entre Fragilidade e Fraqueza. A Fragilidade é o quão rápido você chega ao âmago, e não o quanto ele aguenta”. (Michel Mellamed)
É mais do que urgente a apropriação de nossas distâncias. Nós iremos dizer quais são elas e conheceremos profundamente cada uma das nossas fronteiras, não com o intuito de protege-las, mas de devorá-las. Iremos virar o cânone de cabeça para baixo e dançar sob os esqueletos miúdos daqueles que um dia ousaram dizer que existem fronteiras insuperáveis – e daremos a essa dança a irreverência e a nossa cara. A cara que propõe um mundo possível, um mundo que celebra a revolta como estágio necessário da vida, um mundo que valoriza a queda tanto quanto o salto e o voo. Um mundo que para e aceita sua derrota. Repensa o novo e propõe a magnífica e explosiva poesia.
O sujeito indignado e o sujeito "bem informado" são muito perigosos. Não porque representam uma ameaça direta ou que planejam algum tipo de atentado. Não é nada disso. Existem formas mais complexas de perigo que a simples violência. Esses dois tipos de sujeito são perigosos justamente pelo seu desejo em serem úteis. A pessoa indignada está refém de sua intensidade. Sente dentro de si uma força que a toma da ponta dos dedos ao centro da cabeça - essa força é alimentada por suas emoções. E comoção. A pessoa indignada é incapaz de pensar para além do que sente, e com isso, paralisa. Esbraveja, rebola, mas paralisa. Ela caminha tonta procurando por outro emocionado que a guie. Os emocionados se irmanam facilmente. A pessoa indignada se deixa seduzir por um eloquente indignado num palanque de chumbo. Se contenta em servir a uma representação. E aí, sente que será útil. Encontra um propósito para direcionar toda aquela energia de emoção. Se realiza em dizer (e as vezes berrar) o que acha que a incomoda - e muitas vezes diz o que incomoda todo o país, conhece a fundo os problemas e sabe as soluções de toda a economia, é como grito de mágia - como se fosse possível. O grito é arma e os punhos para cima são a marca do 'vamos adiante'. Mas não saem do lugar. Não sabem como compor o grito, mas repetir o berro. Não sabem manifestar, mas seguir a ordem. O indignado é o servo ideal para um oportunista. Por isso, representa o perigo. Os emocionados estão emocionados. Não é o poder da fé que move montanhas, mas a emoção - o discurso que a motiva. Dê uma pá para cada pessoa emocionada e peça que mudem uma montanha de lugar: eles farão.

Estar bem informado traz uma sensação de controle sobre o que está acontecendo. A pessoa bem informada emite opiniões sobre temas variados, tem segurança no que fala porque "leu num artigo" ou "assistiu no jornal". O que pode confundir a cabeça das pessoas bem informadas, é que toda informação é questionável. Isso faz com que seja muito difícil distinguir a neblina da fumaça. Inclusive, vão noticiar que é neblina, quando for fumaça. Vão noticiar alta temperatura, quando for incêndio. O vício em estar bem informado gera outra questão muito delicada: a informação facilmente substitui a experiência. A experiência não morre, mas é substituída. E a potência da experiência é o que desenvolve o pensamento crítico para questionar a informação. É como se a informação fosse um "saber da experiência" e não a experiência em si, como bem diz Larrosa:
"A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça.Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara". (Notas sobre a experiência e o saber de experiência)
Assim, a pessoa bem informada está embebida na sensação de que é experiente ou conhecedora dos caminhos, quando na verdade, é apenas um álibe dos interesses do informante.
Essas duas posturas, indignado e bem informado, são como como sonsos essenciais para aqueles que tem projeto de poder pautado na servidão pela emoção. É por deus (que deus? que deuses?), é pela família (que família? formada por quem? amante conta?) são pelas criancinhas (quais? as mortas na periferia estão na lista?).
Neste sentido, proponho um movimento saudável para restabelecer um estado de lucidez e autonomia dentro da sociedade: a revolta. Não devemos associar a revolta como uma "atitude agressiva" ou um ato em si, mas como uma maneira de enxergar o mundo: um outro mundo possível. A revolta não vai criar um novo mundo - isso talvez esteja a cargo da revolução. A revolta vai gerar outras possibilidades de mundos. Pensar a partir da revolta é enxergar a realidade com um olhar demorado para o que incomodam. É deixar ser provocado, mas não se deixar indignar. É preciso revolta! Repensar os caminhos que levaram até ali. Revoltar pode ser propor um outro caminho para um mesmo lugar. E talvez seja repensar a existência deste lugar que se quer chegar. É o movimento. A revolta propõe ação. Insurreição. Levante. São ações possíveis. Explosões que agitam o que estava estagnado.
Assim como reler não é ler novamente. Repensar não é simplesmente pensar a mesma de novo. Reler é ler com outros olhos. Repensar é imaginar de outro jeito. A revolta é um movimento de 'voltar' antes mesmo do início e pensar outra forma de ler. Construir. Criar. REvoltar. Sempre em movimento.

Os sensos essências estão em todos os lugares. A grande mídia, seu principal porta-voz, vai informá-los que "tal coisa gerou revolta em tal lugar", quando na verdade, pegando o exemplo da imagem acima, a exposição gerou apenas a indignação dos sonsos. A revolta é a própria exposição, pois ela repensa a infância. Reconta a história. Os indignados e os bem informados odeiam esses rompimentos. A emoção conserva a tradição. Mas a revolta, não. Ela recria a tradição. Um outro mundo possível, lembra?
Por isso, é preciso se revoltar mais. Revisitar. Reler. Repensar. Refazer. Ressignificar. Respeitar. A revolta é uma maneira saudável de pensar, num mundo onde nascem cada vez mais sonsos essenciais. A revolta pode fazer com que os indignados e bem informados encontrem um propósito que os faça repensar. Uma causa que os dê autonomia, que faça com que a emoção seja genuinamente combustível para uma insurreição. A indignação consegue no máximo bater panelas ou eleger um homem com cabeça de chumbo. Mas a revolta... Ah, a revolta. A revolta constrói poetas, destrói megalomaníacos, a revolta planta árvores, a revolta une corpos. A revolta não quer poder, mas renunciá-lo para expandir a potência. A revolta é igualdade, mas dá direito a diferença. A revolta é o primeiro passo para um outro mundo possível.
Revele-se e revolte-se!