Revolte-se


O sujeito indignado e o sujeito "bem informado" são muito perigosos. Não porque representam uma ameaça direta ou que planejam algum tipo de atentado. Não é nada disso. Existem formas mais complexas de perigo que a simples violência. Esses dois tipos de sujeito são perigosos justamente pelo seu desejo em serem úteis. A pessoa indignada está refém de sua intensidade. Sente dentro de si uma força que a toma da ponta dos dedos ao centro da cabeça - essa força é alimentada por suas emoções. E comoção. A pessoa indignada é incapaz de pensar para além do que sente, e com isso, paralisa. Esbraveja, rebola, mas paralisa. Ela caminha tonta procurando por outro emocionado que a guie. Os emocionados se irmanam facilmente. A pessoa indignada se deixa seduzir por um eloquente indignado num palanque de chumbo. Se contenta em servir a uma representação. E aí, sente que será útil. Encontra um propósito para direcionar toda aquela energia de emoção. Se realiza em dizer (e as vezes berrar) o que acha que a incomoda - e muitas vezes diz o que incomoda todo o país, conhece a fundo os problemas e sabe as soluções de toda a economia, é como grito de mágia - como se fosse possível. O grito é arma e os punhos para cima são a marca do 'vamos adiante'. Mas não saem do lugar. Não sabem como compor o grito, mas repetir o berro. Não sabem manifestar, mas seguir a ordem. O indignado é o servo ideal para um oportunista. Por isso, representa o perigo. Os emocionados estão emocionados. Não é o poder da fé que move montanhas, mas a emoção - o discurso que a motiva. Dê uma pá para cada pessoa emocionada e peça que mudem uma montanha de lugar: eles farão.


'Quando a fé move montanhas' trabalho do artista Francis Alys, 2002

Estar bem informado traz uma sensação de controle sobre o que está acontecendo. A pessoa bem informada emite opiniões sobre temas variados, tem segurança no que fala porque "leu num artigo" ou "assistiu no jornal". O que pode confundir a cabeça das pessoas bem informadas, é que toda informação é questionável. Isso faz com que seja muito difícil distinguir a neblina da fumaça. Inclusive, vão noticiar que é neblina, quando for fumaça. Vão noticiar alta temperatura, quando for incêndio. O vício em estar bem informado gera outra questão muito delicada: a informação facilmente substitui a experiência. A experiência não morre, mas é substituída. E a potência da experiência é o que desenvolve o pensamento crítico para questionar a informação. É como se a informação fosse um "saber da experiência" e não a experiência em si, como bem diz Larrosa:

"A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, porém, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça.Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara". (Notas sobre a experiência e o saber de experiência)

Assim, a pessoa bem informada está embebida na sensação de que é experiente ou conhecedora dos caminhos, quando na verdade, é apenas um álibe dos interesses do informante.


Essas duas posturas, indignado e bem informado, são como como sonsos essenciais para aqueles que tem projeto de poder pautado na servidão pela emoção. É por deus (que deus? que deuses?), é pela família (que família? formada por quem? amante conta?) são pelas criancinhas (quais? as mortas na periferia estão na lista?).

Neste sentido, proponho um movimento saudável para restabelecer um estado de lucidez e autonomia dentro da sociedade: a revolta. Não devemos associar a revolta como uma "atitude agressiva" ou um ato em si, mas como uma maneira de enxergar o mundo: um outro mundo possível. A revolta não vai criar um novo mundo - isso talvez esteja a cargo da revolução. A revolta vai gerar outras possibilidades de mundos. Pensar a partir da revolta é enxergar a realidade com um olhar demorado para o que incomodam. É deixar ser provocado, mas não se deixar indignar. É preciso revolta! Repensar os caminhos que levaram até ali. Revoltar pode ser propor um outro caminho para um mesmo lugar. E talvez seja repensar a existência deste lugar que se quer chegar. É o movimento. A revolta propõe ação. Insurreição. Levante. São ações possíveis. Explosões que agitam o que estava estagnado.

Assim como reler não é ler novamente. Repensar não é simplesmente pensar a mesma de novo. Reler é ler com outros olhos. Repensar é imaginar de outro jeito. A revolta é um movimento de 'voltar' antes mesmo do início e pensar outra forma de ler. Construir. Criar. REvoltar. Sempre em movimento.


Obra da exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, Porto Alegre.

Os sensos essências estão em todos os lugares. A grande mídia, seu principal porta-voz, vai informá-los que "tal coisa gerou revolta em tal lugar", quando na verdade, pegando o exemplo da imagem acima, a exposição gerou apenas a indignação dos sonsos. A revolta é a própria exposição, pois ela repensa a infância. Reconta a história. Os indignados e os bem informados odeiam esses rompimentos. A emoção conserva a tradição. Mas a revolta, não. Ela recria a tradição. Um outro mundo possível, lembra?


Por isso, é preciso se revoltar mais. Revisitar. Reler. Repensar. Refazer. Ressignificar. Respeitar. A revolta é uma maneira saudável de pensar, num mundo onde nascem cada vez mais sonsos essenciais. A revolta pode fazer com que os indignados e bem informados encontrem um propósito que os faça repensar. Uma causa que os dê autonomia, que faça com que a emoção seja genuinamente combustível para uma insurreição. A indignação consegue no máximo bater panelas ou eleger um homem com cabeça de chumbo. Mas a revolta... Ah, a revolta. A revolta constrói poetas, destrói megalomaníacos, a revolta planta árvores, a revolta une corpos. A revolta não quer poder, mas renunciá-lo para expandir a potência. A revolta é igualdade, mas dá direito a diferença. A revolta é o primeiro passo para um outro mundo possível.


Revele-se e revolte-se!

© 2020 por Caio Ribeiro

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