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fera antiga

te olho

com punhal


teu pelo

laminado de

suor-cristal


não conte

mais com

minhas oferendas

sabáticas

nem com

minha devoção

diária

tenho como oferta

a escassez

e a precisão

de minha raiva,


espera,

fera

que numa hora dessas

te escalpo

num

tapete esfera

e te piso

e despeço


de sua carente carícia

me quero longe


hoje te dou

lágrima

amanhã,

fome.



Toda aquela incerteza pareceu se dissolver com a tranquilidade habitual do casal. Não que fossem pessoas centradas - longe disso. Mas o humor os salvava sempre. Estão na sacada há quase doze horas. As almofadas no chão meio fora meio dentro denunciam que dormiram ali. O clima não está tão quente como os jornais tinham anunciado. Talvez fosse a limonada - feita com folhas de manjericão, alecrim e hortelã - tudo que plantaram no pequeno apartamento. Ela sentada na cadeira de praia e óculos escuros, fitando a silhueta dele, que lê trechos de o apanhador no campo de centeio em voz alta. A manhã se dilata nesta atmosfera de leveza e um certo relaxo. Comeram uma receita inventada na noite anterior com tudo o que havia nos armários da cozinha. Foi a primeira vez que usaram o ralador de queijo que ganharam em 2017. Ele pergunta se ela está ansiosa, mas a mulher não percebe. Seu corpo tinha se habituado com a voz dele lendo, o que a fez demorar para assimilar. Ele não alterou a voz, se conheciam o bastante para saber que não era preciso. Em alguns segundos, ela iria se virar e responder. Olhou para ele e depois olhou de novo respondendo a pergunta enquanto tira os óculos escuros. Pensa o quanto ele é um homem magro e estranho, um pescoço longo e pontiagudo. Era uma geometria perfeita para seu corpo curvelíneo e elástico. Entre as olhadas, sorrisos. Ele comenta que de acordo com o jornal, seria as 12h em ponto, mas que não acredita muito na precisão do desastre. Ela chutou que seria de noite, quando ninguém menos espera. Riem de novo e dão as mãos. A temperatura vai subindo gradualmente, de modo que há três dias tudo foi ficando mais quente, mas naquela sacada o frescor permanecia. Ele fez uma trança nos cabelos dela, jogaram baralho - e ele perdeu - escreveram seus nomes de um jeito cafona nas paredes do quarto, e fizeram sexo no colchão. Foi por volta das 12h30 que um barulho muito alto chegou de longe. Foi como se uma explosão gigantesca viesse lentamente para a entrada do ouvido. Excitados, levantam para olhar o horizonte pela sacada. Está acontecendo. O céu alaranjado como se fosse fim de tarde. Algumas pessoas gritam na rua. Os dois recolocam os óculos escuros e dão as mãos. A sensação é de estar na estreia mundial de um filme.


O céu se raja em cores e a tempertura aumenta a cada segundo. Os corpos alaranjados dos namorados já estão suando. O meteoro já pode ser observado rasgando o céu. É uma espécie de lua marrom embalada em fogo. O coração dos dois vai se desacelerando ao tempo em que a alegria aumenta. As mãos se aperteam mais forte umas as outras. Quando a colisão acontece, a quilômetros dali - os jornais tinham dito que seria no litoral do sudeste - é possível ouvir um estrondoso grito da natureza. Uma mistura de trovão com fundo do mar e ventos fortes. O horizonte pisca como se todas as luzes tivessem sido apagadas e fica escuro por alguns minutos, mas na verdade ficou tão claro que os olhos levaram um choque e esqueceram de enxergar. Depois disso, a onda de impacto viajando a mais ou menos 13 mil quilômetros por hora começa a varrer todo o horizonte junto com tudo o que foi edificado pela raça humana. Ambos ainda olham tudo, esperando. Finalmente, são arremessados com uma velocidade infinita para o nada que existia atrás de seus corpos. A última coisa que puderam ver é o mundo a sua frente sendo carregado como se estivesse sido amontoado numa sacola plástica. A sensação foi a mesma que levar um tapa de deus. Em pouco tempo, seus corpos já se contorciam junto a massa que era tudo o que já tinham sido. Agora, são poeira de um todo viajando há 10 mil quilômetros por hora nos últimos minutos da raça humana. Que lindo, é o que pensam.

quando

quero

te trago

à minha frente.


talvez seja essa

a essência da minha

verdade canina:

não preciso que minha geografia

esteja junto a sua

pra que eu possa

te ver.


aqui,

vejo teu corpo

e teu pêlo

ofereço um beijo

e aproveito

pra cravar

meus caninos

no centro do

seu peito.


enquanto me divirto com forasteiros

você busca os jesuítas.


te batizei cão

naquele dezembro

ao lado do mar

e desde então

te farejo longe

de onde

meu

eu

está.


quando quero

você está em

minha frente

lambendo feridas.

sei que vem de um lugar distante

e eu nunca o visitei,

mas sei o nome da tua mãe.


vai, cão

me entrega esta tua

pata viajante

tenho que apertar

minha garra

na tangente entre

indicador e polegar.


é como te lati

naquela praia

'não preciso mais te ver para saber o quanto te tenho aqui dentro de mim'

te envio uma centena de aviões insíveis com saudades escondidas. magias de proteção. saúde e







amor.



vai cão,

vai vagamundear e depois

se quiser e fizer

sentido

volte pra me

namorar.




© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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