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se um dia

toparmos

pela rua ou

por qualquer lugar

se você quiser saber de mim

me pergunte sobre o meu desastre natural

favorito

sobre a resposta de um canguru depois de levar um soco

sobre o jeito que baleias compõem sinfonias complexas

- ou sobre as duas vezes que comecei moby dick

me pergunta sobre

a dieta vegana dos dinossauros (e se eu inventei isso)

o jeito que gosto de fotos impressas

o porque de eu ranger os dentes ou acordar com a mão na testa

qual a comida preferida de um ex-ator

a idade da meryl streep

as vezes que eu pensei que era deus

o dia que esfaqueei um homem (e se eu inventei isso)

do meu plano pra assaltar um banco (criado na oitava série e que faz sentido até hoje)

do jeito que eu organizo a louça antes de lavar


se um dia

toparmos

pela rua ou

por qualquer lugar

e a gente quiser saber de nós

não vamos por nenhum atalho

deixa eu tentar adivinhar com o que voce sonhou na noite anterior

que eu invente uma história para essa sua cicatriz

deixa eu fazer uma descrição exata (e irreal) do seu primeiro beijo

lembrar o tema do seu tcc

deixa eu tentar acertar o nome das suas primas e o corte de cabelo delas

imitar o jeito que seu pai assa carne aos domingos

saber por ordem alfabética suas bandas favoritas


ao invés de me dizer oi

me mostre sua arma mais letal

e vamos para um duelo

eu tenho aqui uma faca e um martelo

não pergunte meu signo

me ofereça um copo com veneno e antes

que eu beba, arranque o copo da minha mão com força

e não deixe que eu saiba que quase morri

ou que fui salvo


antes do primeiro beijo vamos

dar banho em um cachorro

e passear com ele

antes que a gente se veja pelado

vamos escalar o morro de Santo Antônio


por favor

vamos evitar atalhos.


gosto dessa paixonite de meteorito

desta paquera severa

desse grudinho de gruta


mas quando este jogo intenso

não fizer mais sentido

vamos conversar

olho no olho

verdade na língua

e bom humor.


farejo

um exagero

a quilômetros

menos o meu

que ocorre

a centímetros

do rosto e dos

joelhos


sei me esquivar de lâminas

azuis e cinzas

me protejo de explosões

por onde escapam estilhaços


nenhum me acerta


mas quando a bomba

é minha

ou quando sou eu quem

serve

o coquetel motolov

tudo se desfaz

como mãos que se

desintegram em acenos

como a memória

das suas costas

naquele quarto


é de um jeito

que só consigo explicar

sendo

e as vezes

acontece durante uma frase

e tomo uma faca

e enfio sem pudor.

fico mudo de repente

meus olhos reviram e

sinto que perceberam a

intensidade ali, presente.


quem não percebe, sente.


já pensei em silêncio tibetano

voto de castidade

jurei nunca mais amar - três vezes

me fiz réu ainda hoje.


que cheiro eu tenho por dentro?

não pode ser só vermelho e

ferro - não,

ferro deve ser o

gosto.


que cheiro tem o meu exagero

que com uma narina tão

privilegiada

só consigo perceber

quando inuda toda a casa?


me fala

que eu

sou bom em ouvir

quando falam de mim.

eu disse:

a insônia é uma mulher

com uma faca na mão

correndo pela rua a meia-noite-mundo

procurando

uma cabeça pra cortar.


o sono

um homem cheio de traumas

que sonha até

perdoar seu menino.


a cama deveria ser

muito mais séria


quando acontece


de dormir ou

acordar.

© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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