sem teio

não sou

uno como

tu

uma casca dura

e ranzinza

de chapéu

estranho - sabiamente utilizado para afastar desinteresses


habita em mim

o

colega de quarto que

inventa experiências sexuais

e também

o outro

vazio e sedutor

que te deu um soco

sim,

eu sou aquela menina estúpida que te pediu ajuda pra arrumar a decoração da árvore de natal -

mas a única que aceitou patinar com você - falo isso em minha defesa

me casei com aquela chinesa quando nos encontramos no bar

também toquei na tua prova como se fosse cocô quando fui seu professor


eu sou o pianista mal acabado

o taxista emocionado

os patos que fogem do lago

sou a puta que

não comeu

e o cafetão

que te bateu

e você fingiu ser um tiro

nessa hora

com você ali no chão contendo um

sangramento imaginário eu te amei muito

sou a freira que falava de literatura na estação do metrô, lembra?

o garotinho com a família que cantou a música errado?

era eu também

não se esqueça

sou tua irmã caçula girando no carrossel

sou até o vendido do D.B

ei,

eu sou teu irmão morto

que você não fala muito.

sou a jane e

cada uma das pecinhas do tabuleiro de dama

mas acima de tudo

antes de todos

eu sou uma

daquelas

crianças

correndo

desesperadas

rumo ao abismo

mas diferente das outras

eu quero que me segure

e se eu deixar que saiba

você não me apanhará.