R.I.M.E

Penso a experiência do mundo como a possibilidade de mundo. O ser e o estar como uma célula do indivíduo. A criatividade como um órgão invisível. A rebeldia como um tratado elementar.


Um dia Lili e eu conversávamos. Ele falava sobre mulheres asiáticas que atrofiavam os pés para se manter num padrão estético - este tema era parte do processo de um espetáculo que ela encenaria no ano seguinte. "se amputar para caber" concluiu. Aquela frase me acompanhou por muito tempo. Se incorporou em mim como um patuá dentro do peito. E desde aquele tempo, tenho lutado para não me amputar. Quero estar no mundo por inteiro.


Assumir o compromisso de não se amputar para caber é duro. Logo no início descobri que não há no mundo tantos espaços para tantas coisas que surgem. É como se o dinamismo do significado das coisas viajasse mais rápido do que o dinamismo das coisas. No começo, me senti muito solitário, principalmente porque sentia que a geometria das minhas necessidades nem sempre encontrava encaixe nas formas dispostas no cotidiano. Foi aí que me deixei levar pelo vento. Comecei a inventar.


A sigla R.I.M.E significa Rituais Independentes para Momentos Específicos. Venho percebendo como flui meu corpo e desenvolvendo suas próprias lógicas. O meu primeiro R.I.M.E surgiu em 2017, quando estava sofrendo de superpopulação de pensamentos. Foi um movimento quase que autônomo. Não havia a minha volta dispositivos necessários para aliviar aquilo que eu estava sentindo. Não havia conduta social capaz de me aliviar. Naquela hora, todas os encaixes do mundo vinham revestidos com lâminas - eu precisaria me amputar para caber. E entre sentir ao máximo e arriscar perder uma metade, eu fiquei comigo. Parei em frente ao espelho - não como quem olha o rosto todos os dias, mas como quem o percebe pela primeira vez. Disse meu nome em voz alta. Ouvir minha voz modificada pelo eco do banheiro arrepiou a nuca. Mirei num ponto fixo entre meu olhos, talvez no meu terceiro olho. Não desviei o olhar. Respiração e olho. Via a imagem do meu rosto se transformando em todas as minhas quimeras. Formas distorcidas torciam a realidade e expandiam espaços. Novos buracos surgiam e eles eram do meu tamanho. Acredito que esta experiência quase que catártica de distorção do rosto pode ser facilmente explicada por algum físico, mas não é isso o que realmente importa. Eu sentia que estava fazendo algo diferente. Estendia aquele instante como quem, segundos antes do orgasmo, deseja que seja para toda a vida. A revolta de pensamentos acalmou. Tudo foi para o lugar que se comporta.


Este R.I.M.E germinal foi o disparador para a construção de outros. E fazemos isso o tempo todo. Quando não encontramos ecos no mundo, na construção social, na cultura, na casa, na pessoa, nós criamos rituais próprios para se aliviar. Para celebrar. Para agradecer. E surgem com a autonomia de quem precisa daquilo só para aquele momento. Não precisa ser um rito milenar, carregado de símbolos. Não precisa de significado. Só precisa funcionar.


Além dos R.I.M.E's, também existem os R.I.T.M.O's - Rituais Independentes e Temporários para Momentos Ociosos, que funcionam como disparadores caóticos para processos artísticos. Construí muitos poemas seguindo estes rituais construídos do nada. E a minha fé neles é milenar - ainda que tenham acabado de nascer. Ainda que deixarão de existir em breve.


Meu corpo foi se aliviando com essa prática. Fui ocupando espaços no mundo e construindo zonas de ressonâncias para minha singularidade. Esses pequenos rituais me fazem perceber a autonomia que tenho no cuidado com meu corpo - e com a minha subjetividade. A nossa singularidade é uma potência latente e devemos sempre expandi-la.


Nesse tempo, construí alguns processos e transformei em livro - ainda sem data de publicação - chamado O Livro das Pequenas Instruções. E para dar um gostinho de caos na boca, deixo alguns deles aqui.







Toda pessoa é um faraó.


© 2020 por Caio Ribeiro

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