o que pode o corpo?

O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer” – Espinosa – Ética III, Prop. 2


No século XVII esta questão já estava sendo levantada como um corpo em pé, buscando olhar para a materialidade e a subjetividade deste "poder". Focault propõe as relações entre os corpos e o poder, traçando uma relação indissociável entre essas duas instituições que se atravessam.


A pandemia do coronavírus (COVID-19) está aproximando cada vez mais a presença dos corpos na discussão política. Afinal, trata-se de uma situação de corpos - e anticorpos. É preciso pensar que a partir de agora o corpo produz os desdobramentos do que irá acontecer. É no campo do corpo e de suas significações que esta crise começou. De forma geral, a reaproximação do corpo enquanto organismo fisiológico expõe a fragilidade do estilo de vida que estes mesmos corpos desenvolveram em torno de si, através de uma subjetividade capitalista. Logicamente, o enfraquecimento das instituições sociais - especialmente causados pela ascensão da extrema direita e do liberalismo no mundo -, desempenha um papel fundamental na exposição das fraquezas destes corpos. Se "tudo que é sólido se desmancha no ar", a crise do coronavírus está dissolvendo as estruturas sociais nos corpos. É possível pensar numa reintegração material em torno das noções de corpo - e também do discurso dos corpos. Neste momento, fala-se em corpos vulneráveis, grupos de risco. Os termos podem tentar ocultar a relação de corpos, mas ela está presente sempre. Sempre esteve, mas agora é impossível negar que esta reorganização micro/macro-cósmica está aniquilando as partes menos fortes das diferentes estruturas que os corpos estão inseridos - e essa destruição em massa está afetando mais corpos do que nunca.


Pessoas estão morrendo. E é possível entender a relação disto tudo com os corpos a partir do momento que se entende a expansão do vírus no mundo. A indústria milionária das carnes exóticas (vinda do assassinato de animais silvestres nos mercados de WUHAN) na China, alimenta uma parcela seleta da elite mundial que busca consumir o exótico, o diferente, o que não se encontra em todo lugar. Isto já é uma relação de corpos, ou uma relação de distinção de corpos. A especificidade das carnes silvestres consegue separar o que é comum do que é raro - e isso recebe valor. A elite se interessa por coisas valiosas e pouco acessíveis. É distinção. Separação para a firmação. O vírus se desenvolveu a partir do contato dos corpos dos animais com as pessoas. É preciso questionar sempre o consumo de carne quando essas questões se tornam latentes. Por que comer algum que nasce da supremacia da dominação e da violência de corpos chamados de "irracionais"?


O percurso se estende na relação de corpos, quando a estrutura que os rodeia é a que os expande. As viagens aéreas internacionais foram vetores da transmissão do vírus e também escancaram a estrutura dos corpos presentes nestes ambientes. Um vírus que se inicia num seleto mercado de elite e se amplia para o mundo através de um dos lugares-símbolo da elite nos últimos tempos: aeroporto. É impossível negar que os avanços nos governos progressistas descentralizaram o monopólio aéreo das elites. Isso gerou revolta e questionamentos: questionamentos que acusavam corpos e o lugar dos corpos. Assim, é possível entender um pouco do colapso que se desencadeou. A transmissão do vírus se dá a partir de um princípio básico dos corpos: relações. As teias de relações que reforçam a supremacia de alguns corpos em detrimento da ruína de outros foi exposta: as primeiras mortes no Brasil, por exemplo, foram de corpos vulneráveis e não pertencentes a elite. Porteiro de prédio de luxo e empregada doméstica que cuidava da patroa contaminada. O que essas relações querem dizer?


Dennis Busch

A exigência de alguns corpos está pulverizando as fronteiras que outros corpos criaram. Assim o caos corpóreo se instaura, pois a velha estrutura não consegue mais se sustentar e novas invenções ou reinvenções começam a surgir na tentativa de: proteger a velha estrutura ou destituí-la de poder.


É neste momento que os corpos se tornam presentes enquanto corpos, expondo sua fragilidade pois de uma certa forma, são corpos que correm risco. E este risco é assumido numa tentativa de universalização da necessidade de cooperação dos corpos. O coronavírus impõe uma condição de coletividade e parceria entre os corpos. E então, nascem outras interpretações corporais. Nascem outros corpos. Nascem outras relações de corpos.


A revolução é pelo corpo.


© 2020 por Caio Ribeiro

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