Antes da Meia Noite


Aos meus irmãos Homens,


Sei que a vida as vezes parece um turbilhão. Compreendo bem as pressões que rondam a nossa vida e que parece que somos peças essenciais para que a engrenagem do mundo continue rodando. Mas isso tudo é uma grande ilusão que vai destruir toda a nossa vida lentamente - e em alguns casos nem é tão lento assim. Não pensem que isto é um exagero, porque não é. Também sou um homem e venho me perguntando algumas coisas que vou apenas colocar aqui na tentativa de que a gente possa refletir junto. Antes de mais nada, faça um exercício: se alguma coisa na sua cabeça criar alguma justificativa para que você não leia este texto, eu te peço: continue! Existe um sistema dentro da sua cabeça muito poderoso que está sugando toda a sua possibilidade de atingir sua verdadeira potência. E ele vai criar essas desculpas de falta de tempo ou de falta de importância para que ele continue tapando seus olhos.


Por favor, meu irmão, continue...


Bom, a primeira coisa que tenho a dizer é que recentemente assisti ao último filme da trilogia de Richard Linklater. Aquele "before Midnight". No filme, algumas coisas começaram a me parecer um pouco estranhas e logo uma pulga surgiu atrás da orelha. Vi que a maioria dos homens no filme parecem todos distraídos. É como se fosse eternamente jovens - no pior sentido que essa expressão pode ter. Não te incomoda pensar que talvez nós, homens, estejamos levando a nossa vida completamente fora da realidade? Ou pior, levando a nossa vida numa realidade criada onde, por muitas vezes, escolhemos explicar absurdos do que aceitar a verdade? Eu tenho outra coisa pra dizer: assumir que está errado ou contar que mentiu é uma tarefa muito difícil para qualquer pessoa. Mas nós, meus irmãos, que somos homens e estamos num relacionamento - especialmente quando é um relacionamento heterossexual - temos que dar este passo. Eu me lembro da primeira vez em que voltei atrás na narrativa absurda que estava inventando para não assumir uma mentira. Da maneira que eu estava falando, era como se minha parceira fosse uma louca e que não tinha entendido uma coisa óbvia. Eu estava no portão de casa e iria entrar, encerrando a noite com esta situação. Algo dentro de mim simplesmente começou a gritar e eu quase não podia ouvir. Pedi um tempo, fiquei alguns minutos em silêncio e tentei estar presente. Não queria mais estar distraído. Quando finalmente consegui escutar o grito dentro de mim, ele dizia algo tão simples. Era mais ou menos assim "por favor, não entre em casa com uma mentira". E eu decidi simplesmente assumir todos os riscos de não entrar em casa com esta mentira. Ali, me deu uma coragem, que eu senti que estaria disposto a enfrentar todos os riscos, como se eu finalmente tivesse ganhado consciência das consequências das minhas ações. As vezes eu conto e preciso cuidar para não transformar isto num ato heroico, porque não é. É o mínimo que eu poderia fazer com a pessoa que estou me relacionando. Todo mundo sabe que mentir não é bom, certo? E por que continuamos fazendo? Por que grande parte do que fazemos ou do que contamos é carregado de pequenas mentirinhas? Seja pra gente parecer mais heroico quando tiver feito algo do trabalho ou seja pra gente não parecer tão fraco quando deixarmos algo passar. Por que?


Neste filme que falei pra vocês, o personagem é retratado sempre falando sobre sexo e usando do humor para criar umas frases de efeitos legais e que mostram que ele está sempre de bem com a vida e disposto a transar. Será mesmo que a gente é assim? Sinceramente, essa imagem do homem simplista que usa do humor e da "racionalidade" pra resolver os conflitos não existe. As vezes a gente tem que descer um degrau e parar de alimentar essa ideia de sermos os maiorais que conseguem fazer todo mundo rir. Essa imagem faz com que a gente acredite que somos capazes de colocar todo mundo no bolso. Que usando do humor a gente consegue fugir, a gente consegue omitir, a gente consegue escapar da realidade. E não precisamos disto. Precisamos ir fundo na realidade e as vezes pedir ajuda. Pedir um tempo. Mas sempre voltar para realidade. Eu já me peguei tentando explicar os maiores absurdos quando na verdade eu estava era fugindo das minhas responsabilidades. Não, não adianta a gente simplesmente explicar para a pessoa que está em uma relação conosco sobre uma interação estranha dizendo "não, não se preocupe. Ela é simplesmente minha colega de faculdade e eu estava explicando o conteúdo da prova pra ela. Ela está com dificuldade em bla bla bla bla bla". O que menos importa é isso. O que muitas vezes o nosso parceiro ou parceira quer saber é "por que você está tão distraído e está entrando em interações que todos sabemos que podem arriscar tudo o que construímos juntos". Entende? Irmãos, não sei se estou indo longe demais com isto tudo, mas sinto que é importante falarmos disso. Não podemos mais estar satisfeitos com a imagem de homens superficiais, sexuais e animais. Precisamos desacelerar e repesar os valores de cada peso que estamos carregando e que estamos fazendo as outras pessoas carregarem.


No filme, na cena final - que acontece depois de uma briga onde o homem disse absurdos - o homem chega e inventa uma historinha de que era um "viajante do tempo" e que tinha uma carta para ler para sua companheira, uma carta escrita por ela aos 82 anos. Lá, ele vem com um discurso bobinho chamando ela de linda e que se apaixona por ela todos os dias. Depois, faz mais uma piada induzindo que os dois deviam transar. O que me incomoda é isso, sabe? Essa imagem do homem que vai resolver tudo com o bom humor inteligente dele. E que no fim tudo tem que acabar em sexo. Não. A gente precisa ouvir o que o outro tem que dizer e as vezes só escutar e deixar que essas coisas entrem verdadeiramente em nós. Mas entrem mesmo, porque é fácil para um homem distorcer tudo o que foi dito. A gente precisa desarmar isso. Imagina que triste você daqui 60 anos se dando conta de que foi uma pessoa que viveu a vida toda se protegendo da vida e manipulando tudo o que as pessoas tentaram te dizer. Não é triste pensar que estamos nos privando de receber amor? E que sim, amor pode ser algo muito além do que dizer "você é linda e eu me apaixono por você todos os dias". Isso é legal e tal, mas as vezes uma relação necessita de mais do que isto. E a gente precisa estar disposto a repensar algumas coisas, porque muitas vezes estamos numa situação de privilégio. Pensa comigo: de todas as brigas/discussões que você e seu/sua parceira tiveram, o motivo principal foi por algum "deslize" seu? Ou por alguma explicação sobre algo "estranho" que você fez? Não responda. Pense no final: como acabou sua noite? Você por algum motivo tentou "acalmar" a situação e falou algumas palavras superficiais sobre estar arrependido? Ou disse que nem se lembra? Irmãos, o que quero dizer é que não dá pra sermos tão em cima do muro, tão mornos e idiotas. A gente precisa deixar a vida nos atravessar com tanta força, que nos tornaremos fortes. Mas não a vida que a gente acha que está construindo, mas a vida real. Que existe além do sonho do super herói que criamos. Por favor, pensem nisso. Olhe para esta foto: quantas você você não foi o homem inventando mil coisas mirabolantes enquanto a pessoa ao seu lado está simplesmente desapontada? Você não sente vergonha quando vê uma imagem assim? Um homem adulto segurando um guardanapo dizendo que é uma carta escrita por uma viajante no tempo. Isso não é ridículo? Pensem nisso. Pensem comigo. Pensamos juntos.


Com sinceridade



Caio.

© 2020 por Caio Ribeiro

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