livro inédito

A edição mundo-livro é uma versão revisitada do livro Manifesto da Manifesta, com novos capítulos e poemas repaginados.

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MANIFESTO DA MANIFESTA:

mundo livro

Edição e Design Gráfico: Maria Teresa Carrión Carracedo
Revisão: Marinaldo Custódio
Arte-Finalização: Maike Vanni

Produção Gráfica: Ricardo Miguel Carrión Carracedo

Ilustração da Capa: Andressa Zelenski

Ilustração da Orelha: Marcella Gaioto

ISBN 978-65-86328-11-0

Gênero: Poesia brasileira

Os últimos tempos foram anos de manifestações aos montes, em Cuiabá, em Brasília, em Santiago, em Nova Iorque, em Paris, em Minsk e até em Hong Kong. Nas ruas e nas sacadas, com flores e com pedras, com bonecos infláveis e com bandeiras queimando, vestindo vermelho ou amarelo, com os peitos pra fora ou com joelhos no chão e pulsos erguidos, manifestou-se à esquerda e à direita, manifestou-se contra a democracia e contra os golpes que ela sofre, contra o machismo e contra o racismo, manifestou-se até contra a esfericidade da Terra. A nossa, ao que tudo indica, é uma época de manifestações, mas curiosamente não aparenta ser de manifestos. É como se em boa parte desses casos, que vemos nas tevês e nas mídias sociais, faltasse um conjunto coeso de ideias, princípios e orientações que visassem coordenar as ações necessárias para se mudar o indivíduo, a política, a economia, o meio ambiente e a arte. Arriscaria dizer que um manifesto é uma hipótese impressa do futuro. Teríamos porventura deixado de imaginar condições melhores do que aquelas nas quais vivemos?

Ao intitular seu livro MANIfesto da maniFESTA, Caio Augusto Ribeiro resgata uma tradição de olhar para frente, de enfrentar as estruturas cristalizadas que obstaculizam o debate de opiniões e impedem as mudanças e o surgimento de novas formas de organização e expressão. Como futuro hipotético, o manifesto é, diferentemente do panfleto que tem os olhos no presente, o outro nome para utopia. Assim sendo, ao percorrer seu livro, vamos também encontrando reminiscências do Manifesto Comunista de Marx e Engels, do Manifesto Futurista de Marinetti, e de outros tantos, como o Manifesto da Poesia Pau Brasil e o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade. Aliás, como não nos lembrar do Plano-piloto para poesia concreta? Esse documento, escrito há mais de sessenta anos, no qual estão sintetizados os artigos teóricos dessa vanguarda que ainda hoje precisa ser devidamente compreendida por quem faz/lê/ouve/vê poesia, talvez agora mais do que nunca, quando o grosso dos poetas tem se acomodado com a função comunicativa de seus textos, não se atentando ao fato de que a poesia sempre foi distinta da fala, já que não se limita às suas estruturas e empregos.

Caio, ao contrário, tanto não ignora a especificidade do que produz, que seus poemas-manifestos são a afirmação contundente de que o “poema reside na prática de riscos”.

Em seu livro, encontramos a perspectiva de quem entende que o campo de combate do poeta gira em torno do controle das palavras, claro, mas também da sintaxe, do espaço da página e de outros recursos que compõem a linguagem, que afinal não deixa de ser o próprio mundo, pois tudo em nós se resume na criação e compartilhamento de símbolos, é por meio de seu uso que existimos, portanto perder a consciência dessa habilidade em contínua transformação é de certa maneira nos embrutecer. Para um poeta a sua palavra de ordem, a sua barricada, o seu piquete, o seu protesto, a sua pedra na vidraça são a sua própria poesia, é dentro dela que se mobiliza a inteligência e a sensibilidade e se revolta contra as bastilhas dos costumes, sobretudo pelo que nela é recusa à banalização da palavra. Em oposição ao seu uso mais imediato, MANIfesto da maniFESTA nos convoca a um estado de greve.

Ao apostar no manifesto como um gênero literário, não apenas como um texto programático, Caio nos remete ao “minifesto” de um dos últimos poetas que escreveu sobre como escrever, Paulo Leminski: “A literatura de um país pobre/ não pode ser pobre de ideias. (...) Num país pobre/ não se pode desprezar/nenhum repertório. Multo menos/ os repertórios mais sofisticados./ Os mais complexos.” Leminski talvez tenha sido o poeta brasileiro que melhor reelaborou o legado de Vladímir Maiakóvski para quem nenhuma causa política poderia ser subterfúgio para poemas medíocres. Se queremos fazer do mundo um lugar de mais liberdade, temos que começar a nos libertar das convenções que restringem o modo como nos expressamos. Vale, por fim, destacar essa releitura libertária de Mallarmé como um lema para os dias que virão: “Que o mundo seja livre, que o mundo seja o livro”.

Paulo Ferraz, 

Escritor