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quando a vista mareja

a mão tateia

a mesa

rememorando

a beleza estranha

que existe no esquecer


o espaço oco

de silêncio

e as estradas mansas

de juízo

o esquecimento é tão belo

quanto a explosão

de um sino.


há beleza

eu sei que há

nas ladeias

e nas vielas

da falta da memória


porque

todo esquecer

guarda um

lembrar-relembrar

e esse balanço

é como aquele movimento

de acordar lindo

sem saber.

te disse que estou pronto.


...

esse teu silêncio me irrita

não está vendo aqui

o meu peito aberto carente

da lâmina que você

jurou me dar?

!


...


vai ser agora ou

não?

odeio esperar

este amolar

da faca.


foi?


me perfure da melhor maneira

que a única certeza

é que desta vez

eu não vou gritar.


...


te disse "eu estou pronto"

mas eu não estava

por isso dói tanto

e não para de sangrar.

esses são fragmentos da mão que vi e vou descrevê-los aqui:


a mão repousada no livro

a mão

na boca do copo impedindo o líquido


a mão dormindo no colo


a mão por si só

flutuando na memória


a costa da mão

com a veia saltando

como se fosse código morse

a palma da mão

e aquelas linhas

que eu fingi saber ler


aquelas linhas como rotas de alguém com sede


a mão na mesa

em volta de alguns tantos

papéis

a mão ainda na mesa

mas agora ao lado de uma xícara grande


a mão rápida percorrendo

as prateleiras do mercado

a mão solene na hora de dizer tchau

e se desintegrar

num aceno febril.


a mão enquanto instituição

do tocar

com uma certa pedagogia do toque

segura sem agarrar

solta sem abandonar

a mão.



a mão rígida segurando a chave

ou mão atenta tocando as

pedras do mato.


seria possível reescrever a história de tudo

a partir desta palma

uma profunda cirurgia de alma

operada

pela sua

mão.


agora

a mão percorre

a escuridão

de uma outra mão

e isso não incomoda

nenhuma outra mão

do resto do mundo

nem esta que

escreve.

© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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