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gastei meu primeiro salário

como ator

comprando 18 livros.


destes,

li quatro e meio


me lembro da

minha namorada olhando espantanda

ao me ver enfiar 18 livros numa

mochila escolar.


andei as ruas do centro

com aquele peso geométrico

me dando bofetadas nas costas

quando eu saltitava de alegria

pelas calçadas de Cuiabá.


naquela altura

eu tinha

17

anos,

em alguns meses

seria pai

e não sabia nada sobre nomes do meio,

que curso prestaria vestibular, ou

transtorno afetivo bipolar.


hoje,

passado o passado

e tendo queimado toda a lenha,

o contrário

de não

é venha.

na mesa do almoço

a couve em migalhãs de mão


você e eu

frente à frente.


já tinha pensando em te transformar num poema

mas não era a hora

até aquela nossa

brincadeira idiota

de se perguntar


'você impediria seu maior inimigo de morrer?'


se transformou numa tortura

o meu garfo se tornou um arpão rápido

para aquelas acelgas

e seus olhos de de garoa

foram ficando mais

vermelhos


eu te disse alguma coisa

sobre meu sentido acabar se meu filho morrer


e depois fui lavar a louça.


desculpe.

é que existem perguntas que,

quando feitas diante dos seus olhos,

produzem erupções em algum lugar da Terra ou

do meu peito.

© 2025 por Caio Augusto Ribeiro

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