CUYAVÁ - parte I

Abri os olhos

a primeira sensação

é um reencontro estranho -

por que eu estou enxergando?


a minha memória mais

recente disputa

com a realidade que vejo.


Lembro que morri no caminho

para Cuyavá.

A tosse me arrancava o

espírito. Foi assim.


o que é este céu azul e vazio

que vejo agora?


Um céu azul claro

da mesma cor que minha

garrafa de café.

O sol tocava meu rosto

pedindo pra eu levantar e acreditar no que estava sentindo

mas antes de

qualquer gesto

lembrei da primeira vez que percebi o céu

foi quando ainda morava

na chácara

e pensei que era o apocalipse:


um pôr do sol tão intenso

que alaranjou o horizonte

eu lembro de deitar no mato

e agradecer a deus

por morrer tão bem.


minha mãe me encontrou

só depois

era de noitinha

e perguntou o que era

tudo aquilo.

Eu disse apenas que dormi.

Ela riu depois de me puxar pelos cabelos.



agora isso . . . . . . . . . .

abro novamente os olhos

que já tinham se acostumado com

o fechar -

me sinto de novo um bebê

tentando tatear o

universo.


"que bom que você está vivo"

uma mulher se aproxima e me ajuda a levantar -

mesmo que eu ainda não estivesse pronto para fazer isso.


"você é o Dr. Jorge, não é?"


a voz dela chegava até mim por

fragmentos de raciocínios

cada palavra ia armando

imagens e só

depois eu entendia o que

significava todos

aqueles sons.


"gostei da parte do doutor"


Ela pareceu se irritar. Foi como se o que eu tivesse dito fosse uma brincadeira horrível. Meu senso de humor voltou comigo.


"você é o DOUTOR residente do laboratório do instituto?!"


"sou motorista de ônibus escolar"

Fui sincero. É engraçado como parece que tudo está numa régua ingrata:


No começo menor: motorista de ônibus escolar - No fim maior: doutor de alguma coisa. O mundo é dividido neste horizonte de separação.


"que merda"


"sinto muito"


"eu sei que sente, mas agora não é hora pra isso. Você precisa vir comigo. Consegue andar?"


"espera, qual o seu nome?"


"nome... Fazia tempo que não pensava nisso. Vem logo, me segue"

Ela sumiu. Olhei para os cantos e vi que estávamos no terraço de um prédio muito grande. Eu conhecia. Era na universidade. A cidade existia quieta. Não havia aquele som borrado de trânsito. Era um silencio inaugural. O céu era inesgotável.


"moça, por favor, me espere. Eu pensei que estava morto"


"e você estava. A maioria das pessoas está, na verdade"

ela descia as escadas com tanta maestria que parecia ter sido criada subindo e descendo degraus.


"como assim?"


"o vírus matou todo mundo. Você provavelmente lembra da sua última memória antes de morrer, certo?"


as palavras dela invadiram meu corpo como se soubessem exatamente o que despertar dentro de mim. A imagem do ônibus retornou.

Minha perna sumiu do corpo e

precisei segurar no corrimão.

Senti ele tão frio. Parecia que tinha me esquecido do tato e das sensações

mais comuns.

o ônibus retorna e encosto a cabeça no volante. cinco crianças choram atrás de mim. A minha voz pedindo para elas continuarem rezando o pai nosso

me envergonhou.

Assisti pelo retrovisor

até a última cambalear e

ca-

ir.


depois disso lembro do meu corpo se amaciar dum jeito

que foi como se

meu fantasma tivesse se transformado em

água com açúcar.

meu sangue formigava

e depois

lembro de ter morrido.


"é engraçado, não? lembrar do momento em que morreu"

ela abriu uma porta. Percebi que tinha descido as escadas

no piloto automático.


Era um laboratório - sei porque tinham tubos de ensaios e computadores que via nos filmes.


"você trabalha aqui?"


"não, mas a pessoa que pensei que você era, sim. Senta, tem café"

a moça loira se virou e me ofereceu um copo de plástico.


"o que está acontecendo?"

cheirei o copo e parecia fresco. O aroma quente entrou no meu nariz e reorganizou minhas lembranças. O cheiro do café é uma espécie de lugar reconfortante.


"você foi trazido de volta a vida. Te vi com este jaleco e o cartão de identificação e pensei que

fosse o Dr. Jorge"


"eu peguei o jaleco de um professor do instituto. Vi ele morrer"


"você sabe onde o corpo está? Com sorte podemos trazê-lo de volta!"


"posso tentar me lembrar



mas


como me trouxe de volta?"


"eu estou aqui há mais ou menos seis meses. Me chamo Natália sou pesquisadora da USP e estava dando uma palestra em Cuyavá quando tudo aconteceu"


"você tá falando do vírus?"


"antes fosse só o vírus. Caos,

pessoas desesperadas,

suicídios coletivos,

falta de alimento,

dor"


lembrei dos vídeos que recebi no whatsapp sobre as atrocidades que estavam acontecendo. As pessoas simplesmente ficavam tontas e morriam.

Acidentes de carro na Itália,

aviões caindo na China...


"acontece que o vírus não mata as pessoas..."


"não?!"


"Não. As pessoas estão numa espécie de sono profundo. O coração bate uma vez por ano.

Chamamos de incubação"


"tipo um coma?"

"nós chamamos de incubação"


aquilo tudo parecia loucura. Eu estava feliz em retornar, mas não sei se era exatamente o que eu queria. Aquela sensação do mundo se apagando me consolava tanto.


"eu vou precisar da sua ajuda para encontrar o corpo do Dr. Jorge. Ele é o único que poderá nos ajudar a entender completamente sobre os

contravírus"


"contravírus?"


"eu sabia que ia perguntar isso. Termine seu café e vamos até o

meu abrigo. Vou te explicando no caminho"

aquela mulher tinha uma pressa afiada. era possível sentir

o quanto estava protegida pelo próprio ego. Estava

péssima por ter me trazido de volta.



Cresci numa fazenda

aprendi a ler animais

que são mais complexos - e sinceros -

que as pessoas.

quando uma vaca não quer te deixar tirar leite

não há o que fazer.

ela simplesmente não vai deixar. Aquela cara

que resmunga,

mas não agride.

que violenta

sem tocar.

era este o rosto

daquela mulher.


"certo, vamos, então"




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CUYAVÁ é uma ficção nascida nesta quarentena que estamos vivendo. Enquanto tudo é incerto, as palavras parecem caber. Durante os próximos dias, estarei atualizando o blog com mais partes. É ficção, mas também é diário. Sinta-se livre para comentar e conversar. Não se esqueça de ficar em casa e lavar as mãos.




© 2020 por Caio Ribeiro

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