CUYAVÁ - parte II

o lugar,

ou melhor,

o abrigo

em que a moça vivia

era aconchegante -

apesar de muito organizado.


"tire os sapatos antes de entrar"

eu fiz, ainda que pensasse que isso era coisa de japonês.

"você está aqui há alguns meses, certo?"

"é... alguns meses.. por que?"

"apenas puxando assunto"

"então você é desses que gosta de puxar assunto"

"olha, moça, eu só estava tentan.."

"não precisa justificar. o dia hoje foi difícil. e não vou

negar: eu estou péssima. não era você que eu queria

ter trazido de volta"


"você fala como se fosse simples.

"trazer de volta".

é como se eu não fosse nada"


"juro que não é a intenção... é que eu estava numa pesquisa intensa...

precisava trazer alguém que fosse me ajudar

a resolver tudo

o que restou"


"e o que restou?"

"desculpe, mas você não entenderia"

"tudo bem"


eu não sou de discussão e

nem de briga.

a moça estava chateada e

de alguma forma

eu conseguia entender.

talvez este doutor sei lá o quê

fosse mais útil que eu.

não me importo em ser 'inútil' para

esses fins.

gosto deste sabor de não saber.

olhei pra ela e por um instante

pensei ter visto uma lágrima -

mas não tenho certeza.

é tão estranho voltar a viver

deste jeito.


"tem um colchão inflável na garagem, você pode dormir nele"

"certo"

ela subiu as escadas.

fez isso arrastando os pés. pobre moça.



o lugar é ajeitado.

ao que parece era uma loja -

sei disso pela vitrine enorme na frente. dá pra ver o

movimento lá fora... quer dizer


não tem movimento nenhum

mas se tivesse, daria pra ver.

.

.

.

.

..

.

...

encontrei o colchão inflável

que lugarzinho mais arrumado. tudo dividido em caixas e mais caixas. tudo etiquetado.

Essa moça é bem organizada. por isso deve sofrer tanto quando algo "sai do controle".


é engraçado como este tipo de gente

sofre por pouca coisa.

é como se o corpo dessas pessoas

ficasse sem direção nesta horas.

são organizadas, dedicadas...

mas quando algo

foge a regra -

a regra que elas impuseram -

sofrem até dor

física.

meu pai era assim:

fazia eu organizar as ferramentas dum jeito que só

ele entendia.

era melhor pra pegar, segundo ele.

eu fui atender só depois de adulto o que tudo aquilo significava.

aquela necessidade em saber onde o martelo estava.

saber quantas batidas dar em cada prego.

era vontade de controle.

descobri quando saí de casa.

engraçado lembrar disso.

foi por causa de uma furadeira....

eu tinha pego para fazer umas prateleiras na

casinha que eu morava e

esqueci de devolver no lugar "certo".

ele precisou e quase morreu de ódio.

discutimos feio. escutei coisas que deveriam estar guardadas

há muito tempo,

mas só as mãos quentes e elásticas

da raiva

poderiam cavar

tão fundo no meu pai.



"o que você está fazendo?"

a moça voltou e me deu um susto.

"fazendo uns pepinos...

tem limão?"


"não... não tem limão. e eu já tinha um propósito

para estes pepinos"


"me desculpe, eu.."

"não fica pedindo desculpas. Come logo, espero que estejam bons"

ela subiu as escadas

e

sumiu.

personalidade forte, como dizia minha mãe.

os pepinos estavam ótimos, por sinal. e tenho certeza que ela iria gostar.

o que será que era o "propósito" deste pepino?

ser cortado em rodelas pra tirar as rugas?


eu ri sozinho e um pepino foi da minha boca pro chão.


meu senso de humor ainda vai me matar.

Abri o pequeno frigobar e coloquei a última porção: talvez ela acordasse com fome.



na garagem, enchi o meu colchão

enquanto ia pensando em tudo o que viria. eu tinha a plena consciência que os próximos dias seriam divididos entre pensar na vida de antes e na vida de agora. se for verdade que todo mundo está morto - dormindo isso significa que só a moça e eu estamos acordados? como vai ser, então?


o bom dos movimentos repetitivos para encher o colchão é que abstraem o raciocínio. esforço físico é o músculo pensando em ação.

lembro bem que por muito tempo minha vida era regulada por uma enxada na mão.


com a cabeça já no colchão o cheiro de poeira é uma espécie de lençol primordial

e aquilo me transporta para a maioria dos leitos que

dormi. todos com cheiro de velho -

inútil é uma coisa tão vaga

a poeira

a camada de poeira que cobre tudo que é inútil

com certeza

tem uma utilidade

para alguma coisa

agradeço

por não sofrer de alergias

não tenho memória de quando

foi a última vez

que espirrei.

isso

sem dúvida

sempre me foi

útil.


. . . . . . . . .


escuto os passos no outro cômodo. meus ouvidos foram treinados pra detectar micro-ruídos no motos dos ônibus que dirigi. sei bem o que escutar e o que deixar passar. era a moça os passos arrastados abriam o frigobar.


dormi com a imagem

dela

comendo

pepinos.



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CUYAVÁ é uma ficção nascida nesta quarentena que estamos vivendo. Enquanto tudo é incerto, as palavras parecem caber. Durante os próximos dias, estarei atualizando o blog com mais partes. É ficção, mas também é diário. Sinta-se livre para comentar e conversar. Não se esqueça de ficar em casa e lavar as mãos.



© 2020 por Caio Ribeiro

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