A distância e a revolta

A Revisa Literária Pixé é um frescor na literatura mato-grossense e arrisco dizer, nacional. Cada editorial conta com a presença de artistas da palavra e artistas visuais que pintam a revista de acordo com o seu fazer. A revista é também um registro importantíssimo da produção literária que está ocorrendo, especialmente em Cuiabá. E desde o lançamento da revista, tenho participado com meus poemas de todas as edições.

Mas este texto não é sobre poesia. A Revista prepara edições especiais paralelas as edições tradicionais, e neste edição 'pintada' por Gervana de Paula, fui convidado a escrever um artigo. Lógico que aceitei o desafio e escrevi em cima do tema da edição especial: LITERATURA E PERIFERIA.

A Distância e a Revolta, na revista Pixé, 2019.

O tema da Revista por si já traz múltiplos diálogos possíveis. Escrevi de acordo com a minha vivência na literatura. De acordo com as experiências que fazem sentido pro meu corpo. O corpo que existe é o mesmo que escreve.


"(...)A escolha editorial desta e das outras edições é privilegiar a literatura e a arte. Qual literatura? A literatura, ora! Importa mais outras questões: quais autores?, qual estética?, qual temática? Isso tudo diz respeito à nossa identidade ou, pelo menos, à identidade que queremos ter. Nessa edição, convidamos Fábio Roberto Ferreira Barreto e Márcio Vidal para fazer a curadoria dos textos. No nosso breve encontro na USP, pedimos aos dois estudiosos – queremos publicar escritores da periferia. Mas que periferia? – perguntariam os leitores. De todas as periferias – respondemos de pronto. Periferia é o lugar onde nos colocam e onde nos colocamos. Periferia não é o oposto do centro, os polos apenas estão longe. Juntos – margem e centro – compõem o todo. Não raras as vezes em que alternam-se de posição no universo artístico(...)" (Editorial da Revista Pixé, edição especial, outubro 2019)

Colaboraram nesta edição: Akins Kintê , Allan da Rosa, Ana Lorena Teixeira, Augusto Cerqueira, Emerson Alcalde, Elizandra Souza, Gaspar Z’África Brasil, Jairo Periafricania, Jéssica Angelin, Luz Ribeiro, Márcio Batista, Walnice Vilalva, Fábio Roberto Ferreira Barreto e Márcio Vidal Marinho, Ludmila Brandão, Márcio Ricardo, Michel Yakini, Mayana Vieira, Meimei Bastos, Nelson Maka, Ni Brisant, Rodrigo Ciríaco, Tula Pilar, Zainne Lima Matos, Thatá Alves, Eduardo Mahon e eu!

Para quem quiser ler & conhecer a Revista Pixé, clica aqui! Vale muito a pena! E deixo o texto que escrevi aqui embaixo para quem quiser ler.

A DISTÂNCIA E A REVOLTA


- Não existe mais distância.

Pelo menos não a distância que havia há 10 anos. E a distância dos últimos dez minutos também se transformou. Houve um tempo, nem tão longe, em que a distância era a medida de separação entre dois pontos. O mínimo comprimento entre as possíveis trajetórias sobre a superfície partindo de um ponto e atingindo o outro. Era tão mais fácil, naquela época, saber se está longe ou se está perto. Se vai demorar ou se será rapidinho.

A distância se transformou. A gente se transformou e acabamos transformando os nossos parâmetros de distanciamento. A modernidade tardia trouxe o advento da dupla-qualidade em estar perto e longe: Longeperto & pertolonge.

Longeperto: Advérbio e/ou adjetivo. Sensação ou capacidade de estar geograficamente distante de alguma coisa ou ideia, mas ainda sentir-se próximo ou conectado de alguma forma (geralmente inexplicável ou genuinamente emocionada). Não confundir com saudade. Nem com melancolia, ainda que possam estar acompanhadas.

Pertolonge: Advérbio e/ou adjetivo. Sensação, capacidade ou ainda o sentimento (e porque não a emoção?) de estar geograficamente próxima de uma coisa ou ideia, mas sentir um distanciamento (pequeno, grande ou imenso) sobre aquilo que tenta (e aí, sem sucesso) se conectar. Há uma não-afinidade que impede que o fluxo contínuo se estabeleça, levando a uma sensação de distanciamento daquilo que se está próximo.


Essas duas sensações são muito comuns. Acontece que a distância se desenvolveu e tomou caminhos muito complexos – assim como as nossas relações, pois essas duas instituições se interpenetram, onde uma faz a outra e a outra faz a primeira. A causa desta transformação não está aqui (esta perigosa tarefa fica para a posteridade), no entanto uma mínima reflexão sobre as distâncias é possível.

Neste dilema de Longeperto & Pertolonge, ainda existe espaço para definir Centro e Margem? Com essa gigantesca capacidade de encurtar as distâncias ou estender abismos, é possível estar perto ou longe daquilo que se tem nas mãos ou daquilo que se quer tocar? A tecnologia transformando nossas relações e nós transformando a tecnologia. Conectar é realmente conectar? Escrever poesia em Mato Grosso é estar distante de São Paulo? O quão longeperto estamos do centro e o quão pertolonge estamos da margem?

Em Cuiabá, Mato Grosso - o lugar onde este texto é escrito -, a nuvem de fumaça existe há muito tempo. Os céus já são escuros e o clima quente sempre carregou um certo desespero – e mais – um certo despreparo para tudo que, por exemplo, São Paulo enfrenta agora. Hoje, para além de ser um autor mato-grossense, sou um poeta e, portanto, tenho a revolta como um horizonte possível. Nas palavras de Helio Oticica:

Eu incorporo a revolta.

E a vontade da revolta tem sido uma conexão forte entre os poetas de todo o Brasil. A revolta nos faz longeperto – nos permite sentir acolhidos, aproximam afinidades – e essa distância que dilata e comprime é um combustível para entender – e sentir – que estamos distantes da revolução – que é toda pautada no construir da história -, mas próximos, muito próximos da revolta, que é pautada, principalmente, no destruir do que está posto. Em Paulo Ferraz (meu conterrâneo que nunca vi ao vivo), encontro esta revolta que me é mãe e filha:

(...)

Projeto o poema como

um artefato explosivo;

um composto de imagens que uma vez detonado despedace o edifício

de ignorância que grassa (...)

Sentir essa revolta é uma solidariedade consigo mesmo. Um ato de profunda rebeldia interior. Imaginar este mundo possível e, mais do que se indignar, é armar poemas feito bomba. É fazer do muro a página, e da cidade o livro. Imaginar um novo povo, o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele, como diria Viveiros de Castro. As distâncias se destroem enquanto a revolta do poema nos une.

É necessário reclamar para si a violenta intensidade do poema e subverter os parâmetros de distância - e esta tarefa exige profunda reflexão, afinal, existem diversas variáveis sociais que podem propor caminhos mais longos, mas ainda acredito na genuína capacidade de se revoltar e repensar, realinhar, reestruturar, reconhecer no outro o que tem de potente.

“Existe uma diferença entre Fragilidade e Fraqueza. A Fragilidade é o quão rápido você chega ao âmago, e não o quanto ele aguenta”. (Michel Mellamed)

É mais do que urgente a apropriação de nossas distâncias. Nós iremos dizer quais são elas e conheceremos profundamente cada uma das nossas fronteiras, não com o intuito de protege-las, mas de devorá-las. Iremos virar o cânone de cabeça para baixo e dançar sob os esqueletos miúdos daqueles que um dia ousaram dizer que existem fronteiras insuperáveis – e daremos a essa dança a irreverência e a nossa cara. A cara que propõe um mundo possível, um mundo que celebra a revolta como estágio necessário da vida, um mundo que valoriza a queda tanto quanto o salto e o voo. Um mundo que para e aceita sua derrota. Repensa o novo e propõe a magnífica e explosiva poesia.

© 2020 por Caio Ribeiro

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